Dia Mundial do Rock: por que cerveja é tão rock n´roll?

*por Carolina Scheibe beer sommelière e cofundadora da Whatever Cervejaria

O Dia Mundial do Rock, comemorado no dia 13 de julho desde 1985, foi escolhida em homenagem ao Live Aid. A celebração é uma referência a um desejo do Phil Collins, que expressou que aquele deveria ser considerado o “dia mundial do rock”. Que assim seja!

Avançando 35 anos na linha do tempo, chegamos a 2020. Um ano surpreendente que confinou a humanidade em casa por tempo indeterminado. Sem poder aglomerar em um bom e velho show de rock n´ roll, devido a pandemia do novo coronavírus, a saída para saudar as lendas rebeldes que fizeram desse gênero musical um estilo de vida é #ficaremcasa.

Em casa sim, sozinha nunca

Embalada por quase 100 dias de confinamento, comecei a refletir sobre o dia do rock n’roll e senti uma nostalgia absurda dessa dupla inseparável. Liguei o som e abri uma cerveja para pensar e me conectar com a música. Foi inevitável sentir falta da sensação de estar em outros ambientes, uma casa de show, na praia com amigos, em um bar. Enfim, a combinação de rock e cerveja remete a rua, liberdade, amizades e curtição. Todas essas coisas que a COVID-19 tirou temporariamente da nossa vida.

Por isso, peguei minha Whatever Vitii Capim limão, meu computador e sentei para escrever sobre experiências. São tantas as referências que o rock me proporcionou ao longo vida, mas a minha primeira memória é da Rita Lee. A rainha do rock nacional ainda é uma das cantoras preferidas da minha mãe e cresci escutando Ovelha Negra, Lança Perfume, Mania de Você e tantos outros sucessos.

Além da Rita, lembro que minha mãe ouvia Tropicália, Cazuza, Jovem Guarda, Beatles, Tim Maia, Os Mutantes, Secos e Molhados, em todos os lugares. Por isso, essa fase do rock nacional tem cheiro e gosto de mãe.

Só quem viveu sabe

Quando cresci um pouco, comecei a ouvir o que minha irmã mais velha escutava. Comecei minha jornada no rock dos anos 90 ajudando minha irmã a apertar o play na fita cassete na hora certa que a rádio iria tocar nossa música favorita ou rebobinando com caneta esferográfica aqueles pedaços enormes de fita embolados para fora. Nessa época descobri Biquini Cavadão, Legião Urbana, Paralamas, Titãs, RPM, The Cure, The Police, Pixies, Echo & the Bunnymen, Blur, Blondie, Pearl Jam e tantas outras bandas.

Aí veio a adolescência e com ela as descobertas dos prazeres da vida exterior. Ir à shows de rock e tomar cerveja começou a fazer parte da minha lista de programas favoritos. Como uma adolescente latino americana sem dinheiro no banco que era, bebia a cerveja que cabia no meu bolso. Nessa fase, meu critério era óbvio: quantidade e não qualidade. Foi mais ou menos nessa mesma época que a minha irmã caçula me apresentou sons novos como Raimundos, Charlie Brown Jr, Chico Science e Nação Zumbi, Lulu Santos, O Rappa, Virgulóides, Offispring, Blink 182, No Doubt, Green Day, Rage Against the Machine e outras tantas bandas do final dos anos 1990.

Enfim, um certo dia fomos a um show do Raimundos em Praia de Leste e nesse dia percebi como era bom ouvir rock n’ roll tomando uma cerveja bem gelada. Naquela hora outra dimensão se abriu para mim e percebi que essa união era perfeita e que iria me acompanhar ao longo da vida.

Muito tempo passou, minha lista de bandas preferidas aumentou demais e meus estudos sobre cervejas também. Passei por vários momentos ouvindo rock n’ roll com uma cerveja na mão. Não vou listar aqui quantos foram, pois faltaria espaço!

Toca Raul

Porém, para encurtar a história, vou dar um salto no tempo para o ano de 2019 para contar a mais recente experiência que reforçou minha convicção de que rock n’ roll e cerveja nasceram um para o outro. O mês era novembro e a banda Newholly tocava durante a festa do “Inesperado Acontece” do The12Beers, evento de cerveja que acontece duas vezes por ano em Curitiba, e eu peguei um copo de cada cerveja artesanal que estava sendo servida na festa.

A cerveja da mão direita era a “Black IPA” (IBU: 50-ABV: 5.7%), da Alright Beer que, segundo o mestre cervejeiro e criador da receita Marcos Marcelino, o Marcão, “é uma variação da American IPA de coloração escura, porém sem sabores fortes torrados dos maltes utilizados. Com perfil aromático de frutas tropicais, provenientes dos lúpulos americanos utilizados, é uma cerveja leve, refrescante e com alta drinkability“. Dei um gole e a banda começou a tocar Raul Seixas. Foi impressionante como percebi a sincronia entre cerveja e música passando por minha corrente sanguínea, trazendo uma sensação de maluquice beleza para minha boca. Esperava torra, amargor, terroso da IPA e fui surpreendida por uma cerveja tropical, fresca e deliciosa. Uma loucura!

Olhei para minha mão esquerda tinha um copo da sugestiva “Me Engana que eu Gosto” (IBU: 28-ABV: 9,1%), criada por Marcio Pádua, mestre cervejeiro e proprietário da Cervejaria 365. “A Me Engana que Eu Gosto apresenta sabores e aromas complexos provenientes da levedura belga utilizada, que associada ao seu alto teor alcoólico, proporcionará uma degustação única e equilibrada. A cerveja é convite para se deixar ser enganado”, explica Marcio. Nem preciso dizer que fui encantadoramente enganada por essa cerveja super saborosa e complexa, que não entrega tudo no primeiro gole. Cada prova traz mais profundidade e novas descobertas, viajei em frutas amarelas, especiarias como cravo, aroma licoroso, suave picância e paro por aqui, afinal, cada um que sinta o que quiser. Mas não posso deixar de dizer que não será enganado quanto à qualidade da cerveja.

Com a palavra os especialistas

Como gosto é algo super pessoal, conversei com pessoas que admiro muito na cena cervejeira de Curitiba e pedi depoimentos de suas experiências com cerveja e rock n´roll. Confira o que feras como Suelen Presser, da Klein, Fábia Malburg, da Mestre-Cervejeiro.com, Rodolfo Andrade, da Whatever Cervejaria e Haroldo Rocha do The12Beers têm a contar:

Suelen Presser, beer sommelière e proprietária da Klein

“O rock sempre será a melhor inspiração para criar cervejas com atitude. Foi nas suas batidas que nasceu Banda Rock Ipa da Klein, que tem o objetivo de fazer a sua cabeça chacoalhar. Com muito lúpulo, identidade marcante e atitude vamos ouvir um bom som. No Baixo, com notas moderadas apresento a Klein Session Rock IPA (IBU: 32-ABV: 4.7%) fazendo uma base de som sutil e imprescindível para a evolução do show. Na guitarra, com presença marcante, à Rock IPA (IBU: 45-ABV: 6.8%). Na Batera, com força total, está à Klein Imperial IPA (IBU: 86-ABV: 9.2%) com suas batidas firmes e intensas fazendo você pular o show inteiro. E no vocal, nada mais, nada menos que o lendário Dave Evans, vocalista do AC/DC que nos concedeu a honra de produzir a Klein Rock Ipa Dave Evans com adição de maracujá (IBU: 45-ABV 7.2%0 para sua turnê no Brasil. Uma edição limitada, autografada e inesquecível, um marco para a história da cervejaria Klein”, conta Suelen Presser, beer sommelière e proprietária da Klein Cervejaria.

Jamais poderia escrever um texto sobre cerveja e rock n´roll sem falar com a Suelen. Se hoje nós mulheres recuperamos nosso espaço no mundo cervejeiro temos muito a agradecer à Suelen. Ela é uma das pioneiras nesse mercado e, com muita dedicação e persistência, abriu o caminho que passamos atuar nessa área. A Klein Cervejaria é o exemplo de como a união entre cerveja boa e rock pode ser fantástica.

Fábia Malburg, beer sommelière e gestora de comunicação da Mestre-Cervejeiro.com

“Quando o Bruce Dickinson, vocalista do Iron Maiden (uma das minhas bandas favoritas), revelou que era mestre cervejeiro e fez a primeira Trooper, fiquei louca atrás da cerveja e do copo. Naquela época conhecia muito pouco sobre estilos, ela é uma Special Bitter, eu experimentei e não entendi muito bem a proposta. Anos depois tive que degustar de novo. Quando a Bodebrown, cervejaria de Curitiba, divulgou que estava produzindo a Trooper brasileira, uma Session IPA com adição de nibs de cacau, foi uma nova emoção. Lá fui eu atrás da cerveja e me apaixonei. Obrigada, Bruce!!! Rock’n’roll e cerveja são minhas paixões. Por mais que as duas coisas casem perfeitamente, grandes shows raramente oferecem cervejas artesanais, e nós, beer lovers, temos que nos contentar com cervejas comerciais a preços absurdos. Lembro uma vez que fui a São Paulo para um show do Richie Sambora, ex guitarrista do Bon Jovi. Era um lugar pequeno, excelente pois ficamos perto do palco muito confortáveis, sem aperto. Quando fui ao bar, custei a acreditar, 4 torneiras de chope artesanal! Tive que degustar todos eles, foi uma bela experiência, curti muito mais o show!”

Rodolfo Andrade, sócio e fundador da Cervejaria Whatever

Para o meu sócio, o Rodolfo Andrade, que também é o criador das nossas cervejas. “Geralmente é assim quando vou bolar uma nova béra: lápis e papel na mão direita, pint gelado da mão esquerda, chinelo de dedo nos pés e rock’n’roll nos fones! É o tipo de coisa que não se faz por encomenda. A inspiração vem e BUM! Lembro do dia em que nasceu a Ceis, session IPA da Whatever Cervejaria. Eu queria brassar uma IPA de presença nas minhas panelas em casa e estava com algumas ideias de lúpulos para usar. Conversando comigo mesmo eu dizia: vou usar Columbus e Citra. Não, não, usarei Chinook e Cascade. Putz, mas Centennial e Comet ficaria massa. Enfim, dei outro gole na minha béra, a faixa virou nos fones e o estalo rolou! Cara, vou botar todos eles, todos os seis, e caprichar nas técnicas de lupulagem para extrair o melhor de cada um deles só pra ver no que vai dar. Fiquei surpreso com a coincidência de usar seis variedades de lúpulo na mesma cerveja e todos começarem com a letra C.  O nome nasceu na sequência, Ceis que nada mais é seis lúpulos com a letra C. O resultado nas panelas ficou tão irado que mandamos brassar na cervejaria. Essa foi a cerveja mais rock’n’roll que já criei até hoje. Os seis lúpulos formaram uma espécie de banda, cada um fazendo a sua parte pra melodia soar perfeita”, relembra Rodolfo.

Por que cerveja e rock n´roll combinam tanto?

“Se você ainda não está convencido que rock n´roll e cerveja combinam saiba que os dois harmonizam tanto porque são democráticos, possuem vários estilos e vertentes. São apreciados por pessoas de todas as classes, cores e estilos ao redor do mundo. Cada pessoa curte rock e cerveja do seu jeito, no seu tempo e sem preconceitos. É por isso que eu gosto tanto dos dois e da combinação deles”, conta  Haroldo Rocha, organizador do The12Beers.

Quem tem amigos tem tudo

Depois de tantas experiências, cheias de significados, só posso agradecer ao depoimento de cada uma dessas pessoas queridas e, finalmente, convidar você que chegou até aqui a colocarem seu rock preferido no som, pegar sua bera e deixar rolar. Permita-se viajar nas notas musicais e nos sabores e aromas da cerveja. Sinta tudo aquilo que sentimos quando unimos essa dupla.

Para quem ficou curioso, escrevi este texto ao som de “Wish You Were Here” do Pink Floyd em homenagem a todos que perderam seus entes queridos nesse ano tão estranho. Depois vieram  “Dreaming”, do Blondie na versão do Green Day,  “Back On The Chain Gang”, The Pretenders, “Pretend We’re Dead” do L7 e muito mais. E a cerveja? Nem posso contar, mas é uma que me ajuda a sonhar. Mas tudo sem muita “goumertização”, pois o mais importante é curtir e ser feliz.

*com divulgação

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VanessaMalucelliAndersen

Colunista do Site — Divirta-se Curitiba!

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