Covid-19 ou Dengue? Na dúvida sobre os sintomas, saiba o que fazer e onde buscar ajuda

Causadas por vírus e com quadro clínico que vai de assintomático a grave, podendo evoluir para óbito, as duas doenças têm semelhanças que podem confundir os pacientes

A pandemia do novo coronavírus ofuscou outro problema de saúde pública no Brasil: a dengue. Endêmica no país, a doença é uma ameaça e merece atenção pelo crescimento no número de casos, por seus sintomas iniciais serem semelhantes à Covid-19 – o que acaba confundindo os pacientes – e requer cuidados por sua gravidade, já que é uma infecção viral que pode levar à morte.

No Paraná, segundo o boletim epidemiológico nº 27/2020-2021 da Secretaria de Saúde, o número de casos de dengue confirmados ultrapassa 8,6 mil desde agosto do ano passado, com 18 óbitos registrados até o dia 13 de abril. O Estado soma 51.599 notificações em 353 municípios e 10.471 casos estão em investigação.

Professor do UniCuritiba - instituição de ensino superior que faz parte da Ânima, uma das principais organizações educacionais do país - o biólogo Carlos de Almeida Barbosa diz que o combate à dengue exige um esforço coletivo, uma cooperação comunitária para a prevenção, feita basicamente por meio da eliminação dos criadouros do mosquito transmissor.

Além do crescimento no número de casos, outro aspecto preocupa. “Por sua sintomatologia semelhante à da infecção pelo agente viral SARS-CoV-2, responsável pela Covid-19, os pacientes ficam em dúvida na hora de procurar atendimento médico”, comenta.

Mestre em Ciências e doutorando em Tecnologia em Saúde, Carlos explica que a infecção provocada pelo vírus da dengue pode apresentar um espectro clínico variado, desde quadros assintomáticos até eventos graves como hemorragia, choque e risco de morte.

“Não existe tratamento específico para a dengue e os cuidados terapêuticos consistem em tratar os sintomas, combater a febre e, se necessário, fazer a hidratação por via intravenosa. O atendimento rápido para a identificação dos sinais e a intervenção médica ajudam a reduzir o número de óbitos”, alerta.

Alguns países já utilizam uma vacina contra a dengue, aplicada em indivíduos entre 9 e 45 anos previamente infectados e que habitam áreas endêmicas ou de risco. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que a vacinação seja feita somente em regiões nas quais as condições epidemiológicas indiquem alto índice da doença. No Brasil, o imunizante está em uso desde 2015.

Sintomas e assistência médica

Os primeiros sintomas da dengue podem ser quadros febris variando entre 39ºC e 40ºC de início repentino, com persistência de dois a sete dias, acompanhada de dor de cabeça, dores no corpo e nas articulações, prostração, fraqueza, dor atrás dos olhos e erupções cutâneas, podendo ocorrer náuseas e vômitos.

No caso da Covid-19, os pacientes costumam apresentar febre, cansaço, dores no corpo, congestão nasal, dor de cabeça, de garganta, diarreia, perda de paladar e olfato, conjuntivite e erupção cutânea.

Em função da pandemia, a orientação é que as pessoas com febre persistente ou qualquer sintoma com características semelhantes à dengue ou Covid-19 entrem em contato com o serviço de saúde de Curitiba para uma triagem prévia, antes do deslocamento para atendimento presencial. O telefone é 3350-9000.

Depois da avaliação inicial, a central fará o direcionamento do paciente para o local adequado: uma unidade de atendimento Covid ou uma “unidade limpa”, para onde são encaminhados pacientes com outras doenças. No caso das consultas presenciais, os atendimentos são feitos nas Unidades Básicas de Saúde (UBs) (casos com sintomas leves e moderados) ou Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), em situações graves.

O professor Carlos Barbosa explica que ao apresentar febre alta é importante buscar o serviço de saúde o quanto antes. “É difícil diferenciar inicialmente os sintomas, mas os profissionais de saúde estão habilitados a fazer a triagem. Um teste preliminar para o diagnóstico da dengue é a ‘prova do laço’, que serve como um indicativo.”

Dependendo do caso, continua o docente do UniCuritiba e especialista em Biologia Celular, são realizados outros exames como detecção de anticorpos, IgG e IgM, hemograma, coagulograma e testes com técnicas moleculares, como a Reação em Cadeia da Polimerase (PCR).

Reinfecção e prevenção

A pessoa que já teve dengue não está livre de sofrer uma nova infecção. Isso porque existem quatro sorotipos do vírus em circulação no Brasil e, para estar totalmente imune, seria necessário entrar em contato com todos eles. “O problema é que a cada contágio com um novo sorotipo, os sintomas podem ser mais intensos e os riscos de desenvolver uma forma mais grave de dengue são altos”, adverte o biólogo.

Uma das diferenças entre a dengue e a Covid-19 está na forma de transmissão. Enquanto o coronavírus é transmitido de pessoa para pessoa, a dengue depende de um vetor, o mosquito da espécie Aedes aegypti. “Neste caso, dizemos que é um arbovírus, um vírus transmitido por artrópodes”, explica o professor.

Para conter o avanço da dengue é necessário eliminar os criadouros do mosquito transmissor, que se prolifera em locais com água parada. A orientação é inspecionar vasos de plantas, manter o quintal limpo, evitando o acúmulo de entulhos que possam reter água e vedar reservatórios e caixas d’água.

Jacarezinho interrompe programa efetivo no combate à dengue

Paraná enfrenta a maior epidemia da história e o único município do mundo contemplado com o projeto Controle Natural de Vetores opta por aplicar inseticida, interrompendo ação que quase zerou a infestação do mosquito

Na cidade de Jacarezinho, no Norte Pioneiro do Paraná, uma técnica inédita no mundo foi utilizada para controlar a proliferação do mosquito Aedes aegypti. Desenvolvido por um grupo de cientistas da Forrest Brasil, empresa de biotecnologia incubada no Tecpar (Instituto de Tecnologia do Paraná), o projeto Controle Natural de Vetores registrou reduções significativas tanto no número de ovos, quanto no número de larvas. Os bairros tratados tiveram até 90% de redução de infestação do mosquito Aedes aegypti.

Apesar da eficácia comprovada de seu projeto, a Forrest Brasil Tecnologia afirma que enfrentou dificuldades burocráticas para expandir o trabalho para toda a cidade de Jacarezinho. O município sofre historicamente com epidemias de dengue e, segundo dados do último boletim epidemiológico, soma 1.451 casos da doença para uma população de 39 mil pessoas. Diante do expressivo aumento no número de casos de dengue, a Secretaria Municipal de Saúde optou por intervenções diretas com inseticida e liberação de fumacê nas áreas mais críticas da cidade.

“Nesses bairros mais afetados, começamos a soltura de mosquitos machos estéreis somente no dia 22 de janeiro deste ano, após a prefeitura autorizar. Agora com essa medida, foi necessário adotarmos o manejo das solturas nessas áreas em dias diferentes das intervenções com o veneno. Entretanto, a vida útil dos mosquitos machos estéreis pode ser reduzida com o inseticida, comprometendo a efetividade do trabalho”, explica a coordenadora do projeto, Lisiane de Castro Poncio.

A atuação da Forrest ocorreu em pequenas áreas da cidade que, mesmo com influência do restante do município, foram os locais com o menor índice de dengue. “Na Vila São Pedro, por exemplo, tivemos apenas seis casos até o final de janeiro (período do contrato), enquanto no mesmo período, o Aeroporto apresentava mais de 500 registros da doença”, destaca. De setembro de 2019 até o dia 5 de março de 2020, mais de 13 milhões de mosquitos machos estéreis foram liberados na cidade para conter a proliferação do Aedes aegypti.

A partir deste mês de março, a aplicação do fumacê foi estendida para toda a cidade, incluindo a Vila São Pedro, que é a principal área de atuação do projeto. “Como isso, não é recomendada a liberação dos machos estéreis.” Mesmo com a interrupção das solturas, a Forrest irá manter o monitoramento dos ovos até o final de março. Além disso, as atividades de conscientização da população continuam sendo realizadas pela empresa.

Dados do PR

De acordo com o último boletim epidemiológico da Secretaria de Saúde divulgado nesta terça-feira (17), o Paraná atingiu a marca histórica de 65.524 casos confirmados de dengue, com 49 mortes. Os números são de agosto do ano passado até agora. Em apenas uma semana, os casos oficializados subiram 24,5%. Dos 399 municípios, 147 estão em situação de epidemia.

Técnica pioneira

O município de Jacarezinho foi o primeiro no mundo a usar a técnica natural, que não envolve modificação genética, desenvolvida pela Forrest Brasil Tecnologia. Os mosquitos machos estéreis são produzidos a partir de ovos coletados na região afetada e, posteriormente são soltos na natureza, contribuindo para a redução de novos descendentes, diminuindo assim a proliferação desses mosquitos.

O mosquito macho se alimenta apenas de seiva de plantas e, portanto, não pica e não oferece nenhum risco para a população. São as fêmeas que transmitem as doenças, pois precisam do sangue para completar o processo de maturação dos ovos e fazer a postura. Como a fêmea copula uma única vez durante a vida, se a cópula for com um macho estéril não haverá descendentes. Já se a cópula acontecer com um macho não estéril, uma fêmea pode gerar até 500 ovos, que vão resultar em novos mosquitos.

Resultados comprovados

A solução teve eficiência comprovada e registrou reduções significativas na infestação do mosquito Aedes aegypti nos bairros tratados. Em 2018, o Projeto Piloto tratou os três bairros que tinham situação mais crítica no município: Aeroporto, Novo Aeroporto e Vila Leão. Ao final do projeto piloto, após 7 meses de solturas de mosquitos machos estéreis, o resultado foi a redução de mais de 90% na população de Aedes aegypti na área tratada.

O Levantamento Rápido de Índices de Infestação do Aedes aegypti (LIRAa) chegou a registrar índice zero de infestação do mosquito nos Bairros Novo Aeroporto e Aeroporto. No ano passado, o bairro mais crítico era a Vila São Pedro, que recebeu o projeto e depois disso registrou apenas seis casos de dengue. Hoje há uma inversão, com novos registros de dengue no Aeroporto e grande redução de infestação do mosquito na Vila São Pedro.

A atuação da Forrest em Jacarezinho é considerada um caso de sucesso e os resultados já foram apresentados para outras cidades do Brasil. “Os dados comprovam que a tecnologia, aliada ao trabalho de educação e conscientização da população, contribui para a redução significativa dos índices de infestação do Aedes aegypti, mosquito transmissor do vírus da dengue, logo, reduzimos drasticamente os casos desta doença na área onde atuamos. Para garantir a sustentabilidade do projeto, é necessário mais um ano de trabalho, especialmente para reduzir os ovos remanescentes. Com a continuidade do projeto e o apoio da população e do poder público, podemos conquistar uma solução sustentável para combater a dengue e outras doenças relacionadas a esse mosquito”, esclarece a diretora da Forrest Brasil Tecnologia, Elaine Paldi.